voutar
Helio Amorim
O patrimônio tecnológico de uma nação
é um dos elementos que suportam a sua independência
política e econômica. Mesmo num mundo globalizado,
gerador de interdependências em todos os campos, em
escala planetária, um país tem fragilizada a
sua capacidade de decidir sobre políticas de desenvolvimento
se não domina tecnologias básicas e não
desenvolve continuamente novas tecnologias, mantendo-se refém
dos que as detêm e impõem caminhos que podem
não ser os que interessam à nação.
Esse patrimônio nacional é, portanto, ameaçado
se são insuficientes os investimentos em pesquisa e
desenvolvimento tecnológico, num cenário mundial
de acelerados avanços que tornam rapidamente obsoletas
tecnologias que não se atualizam no mesmo ritmo.
O Brasil se deu conta do seu atraso nessa corrida e está
criando fundos financeiros setoriais importantes para gerar
recursos suficientes para reverter esse risco. Além
do que já está implantado no setor de petróleo,
com a aplicação obrigatória em tecnologia
de parte dos royalties devidos pelas operadoras, acabam de
ser aprovados pela Câmara Federal novos fundos financeiros
para o mesmo fim, nos setores de energia elétrica,
transportes, recursos hídricos e aeroespacial.
A aplicação dos volumosos recursos que serão
gerados pelos novos mecanismos criados deverão ser
aplicados no tripé que sustenta o patrimônio
tecnológico de qualquer nação: a universidade,
o centro de pesquisas e a empresa de consultoria de engenharia.
Cada pé tem um papel próprio e juntos, fortemente
articulados, garantem a solidez do apoio. A universidade prepara
profissionais capazes de dominar a ciência e a técnica
em seus aspectos teóricos e conceituais, com uma adequada
iniciação à prática da profissão.
Os centros de pesquisa absorvem os profissionais vocacionados
para a investigação e desenvolvimento científico
e tecnológico que em seus laboratórios promoverão
avanços e disseminação de sua produção.
Essas são justamente as finalidades das atividades
das universidades e centros de pesquisa, que não pretendem
apenas produzir compêndios para as prateleiras de suas
bibliotecas.
As empresas de consultoria assimilam os conhecimentos e tecnologias
desenvolvidas, promovem a sua adequação à
solução de problemas concretos de engenharia,
fazem o que se chama "engenheirar" a tecnologia.
São suas atividades-fins.
Articulados entre si, as empresas de consultoria podem participar
da formação do universitário, seja nas
salas de aula, seja nos estágios supervisionados na
empresa, enquanto as universidades e centros de pesquisa são
parceiros habituais das empresas na execução
de trabalhos que exijam operações de laboratório
e investigações especiais que não constituem
sua atividade-fim. Os três deverão ser, portanto,
igualmente reforçados para que o equilíbrio
no tripé seja estável e o suporte seja sólido.
Os novos fundos criados para o desenvolvimento tecnológico
estão direcionados especialmente para dois desses pés,
as universidades e centros de pesquisa, ficando o terceiro,
justamente a consultoria de engenharia, como eventual embora
desejável parceiro, mas com tratamento diferenciado.
Não é bom. Não é confiável
um tripé com um pé fragilizado ou quebrado.
O equilíbrio fica comprometido. Os investimentos nesse
campo devem valorizar as aplicações práticas
do desenvolvimento científico e tecnológico
que cabem às empresas de consultoria de engenharia.
A interação dos três apoios poderia ser
representada e visualizada naquelas travessas com que os marceneiros
reforçam a resistência de um banco, "amarrando"
as pernas a meia-altura, sem o quê o equilíbrio
e a solidez da peça seriam precários.
Por isso, os vultosos recursos que o governo injetará
em programas de desenvolvimento tecnológico deverão
ser canalizados igualmente, nas mesmas condições,
para universidades, centros de pesquisa e empresas de consultoria
de engenharia. Que cada qual possa tomar a iniciativa de apresentar
projetos e programas que atendam às demandas do seu
campo próprio de atuação, buscando os
parceiros que complementem a sua qualificação
técnica e operacional para cada empreendimento.
Esse é o tripé que pode suportar o peso do
desafio da competitividade de base tecnológica do país,
em mercado aberto, já que as empresas estrangeiras
que aportam por aqui, também chegam apoiadas pelas
universidades e centros de pesquisas de seus países.
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