Para Saber Más

ALCA e a Engenharia

voutar

A discussão sobre a ALCA vem ocupando espaços crescentes na mídia e no debate político, em todos os níveis e países do continente. No Brasil, deve agudizar-se no atual período eleitoral. É evidente a perplexidade geral, inclusive por falta de informações objetivas e transparentes sobre as negociações iniciadas e as conversações freqüentes entre altas autoridades dos países que se reduzem a poucas linhas no noticiário sobre encontros de ministros ou presidentes.

Por outro lado, além de obviamente divergentes os interesses dos países envolvidos, não são tampouco convergentes os interesses internos em jogo. Há divergências entre os setores exportadores de bens e exportadores de serviços. Nos setores de serviços, por exemplo, não coincidem os interesses de bancos, seguros, turismo e demais serviços, de um lado, e engenharia, de outro.

Em recente Congresso Panamericano de Consultores de Engenharia, realizado pela FEPAC, no mês passado em Santiago, Chile, tivemos a oportunidade de ouvir depoimentos e debater diretamente com engenheiros consultores que participaram pessoalmente de negociações de acordos de livre comércio, nas rodadas em que se tratava de serviços e, especificamente, serviços de engenharia. Ficamos conhecendo, assim, os bastidores em que se exercem pressões e são trabalhados os conflitos de interesses. Voltamos com a firme convicção da necessidade absoluta de participação ativa e efetiva de engenheiros bem preparados sobre o assunto, nas mesas de negociações, ainda que na função de assessores sempre presentes dos negociadores oficiais, funcionários dos governos que pretendem chegar ao acordo.

No evento de Santiago, revelaram-se alguns episódios que passaram despercebidos quando ocorreram. O Chile, como todos sabem, pretendeu aderir ao NAFTA. O que não sabíamos é que sua pretensão foi abortada pelos Estados Unidos. Por alguma razão pouco clara, a entrada do Chile no NAFTA iria contra os interesses do parceiro mais poderoso daquele acordo. Com lúcida percepção da situação, o Chile negociou e firmou, sucessivamente, acordos bi-laterais com o Canadá e União Européia, criando condições mais favoráveis do que as da antes pretendida adesão ao NAFTA. Em todos esses processos, nas discussões sobre serviços de engenharia, estiveram presentes engenheiros consultores do Canadá e Chile, assegurando o tratamento adequado da engenharia naqueles acordos.

De fato, os serviços de engenharia, sejam os de construção, sejam os de projetos e consultoria, têm tais peculiaridades que exigem tratamento totalmente diferenciados, para que não sejam literalmente esmagadas as engenharias nacionais, especialmente as do setor de consultoria de engenharia, por grandes empresas transnacionais que representam interesses poderosos de exportadores de bens e serviços de grande porte. Todos reconhecem o papel da engenharia de projetos como ponta-de-lança para a abertura de mercados para aqueles setores industriais, com potencial de subsidiar a engenharia como uma espécie de pré-marketing de suas exportações.

Nunca é demais ressaltar o óbvio: a remoção uniforme de barreiras tarifárias e a homogenização de legislações tributárias, fiscais, trabalhistas, previdenciárias etc. pode interessar vivamente a determinados setores exportadores e resultar desastrosa para outros setores, se não associada a adequadas salvaguardas que considerem as especificidades setoriais. Por outro lado, tem sido denunciado, reiteradamente, nos acordos existentes, a criação ou manutenção de barreiras não-tarifárias que podem desequilibrar a competição ou definir fluxos exportadores de mão única para certas atividades, especialmente as de engenharia.

Depoimentos de engenheiros consultores mexicanos indicam que atualmente, como conseqüência do NAFTA, 50% do seu mercado nacional está em mãos de empresas norte-americanas. Em outros 45%, empresas mexicanas estão associadas a consultoras daquele país, geralmente com atribuições menos importantes de engenharia, restando 5% do mercado para os contratos com empresas nacionais locais. Entretanto, reconhecem que outros setores da economia do país cresceram consideravelmente com o NAFTA e estão portanto satisfeitos. De fato, houve um real aquecimento da economia mexicana, com a migração maciça de indústrias do norte para aquele país.

Prevemos que a ALCA será necessariamente uma extensão do NAFTA aos demais países do continente. Com efeito, o NAFTA teve que subordinar-se aos acordos maiores de comércio mundial e a ALCA terá igualmente que ser reconhecida obrigatoriamente pela OMC – Organização Mundial de Comércio, que engloba os acordos anteriores do GATT-94, o Acordo de Agricultura, o GATS (sobre serviços), o TRIM (sobre investimentos) e o TRIP (sobre propriedade intelectual). Assim, para ser aprovada, a ALCA terá que ser aceitável para os demais países vinculados à OMC, inclusive a União Européia e Japão, que mantêm importantes relações comerciais com a América do Sul.

Ocorre que os Estados Unidos tiveram enorme dificuldade para aprovar o NAFTA no Congresso americano. A aprovação da ALCA no mesmo Congresso seria impraticável se em relação ao NAFTA acrescentasse qualquer cláusula que não fosse claramente favorável ao comércio norte-americano. Por isso, aquele país já tem anunciado que pretende incluir na ALCA somente os temas de seu interesse, excluindo explicitamente as questões de interesse do Brasil, tais como a arbitrária legislação anti-dumping americana, os subsídios à exportação de produtos agrícolas e outras.

Nesses posicionamentos está configurada a lícita defesa dos interesses norte-americanos e os compromissos políticos internos com o setor produtivo daquele país. O mesmo deve pautar os posicionamentos do Brasil e demais países envolvidos no acordo. O problema é o enorme desequilíbrio de poder entre os países. Os Estados Unidos têm um poder de negociação infinitamente superior ao dos parceiros da ALCA. É capaz de exercer pressões econômicas e políticas que neutralizem oposições às suas propostas. Por isso, pode-se prever que o acordo tenderá a criar condições mais favoráveis ao comércio norte-americano e às suas mega-empresas e, conseqüentemente, desfavoráveis aos parceiros.

Os acordos internacionais de livre comércio, por definição, estendem a uma área geográfica maior a competição livre praticada dentro das fronteiras do país. Com a eliminação das barreiras tarifárias, a competição deveria supor que as empresas dos países que abriram suas fronteiras tivessem capacidade de competir com as empresas dos outros países. Mas não é assim. O desequilíbrio imenso entre as capacidades econômico-financeiras, a disponibilidade de financiamentos, os diferentes estágios de desenvolvimento tecnológico e outros muitos elementos que pesam decisivamente na competição, torna extremamente arriscada a total abertura das fronteiras de comércio a curto prazo.

No caso do comércio de serviços e, especificamente, de serviços de engenharia, como já mencionado, salvaguardas especiais teriam que constar da ALCA, se a negociação prosperar. Neste caso, trata-se fundamentalmente de estabelecer-se o prazo necessário para a redução substancial do desequilíbrio tecnológico, contado a partir do acordo. Nesse período de adaptação às novas regras definidas no possível acordo, pesados investimentos deverão ser feitos pelo Brasil e demais países que pretendem sobreviver no cenário competitivo sem fronteiras. Regras severas, ainda que temporárias, por exemplo, de obrigatória participação das empresas de engenharia nacionais na implantação de empreendimentos, especialmente de infra-estrutura, com mecanismos eficientes e eficazes de transferência de tecnologias, deverão ser introduzidas no acordo.

Por outro lado, a eliminação de barreiras tarifárias deve ser complementada com a eliminação das não-tarifárias, já referidas. Uma vasta legislação nos países do norte estabelece requisitos de variados tipos de certificações e de condições de habilitação para o exercício profissional, restrições de imigração e um largo rol de barreiras não-tarifárias que, na prática, impedem literalmente a exportação para aqueles países daquilo que de fato interessa aos países do sul exportar.

O caso dos Estados Unidos é exemplar. Trata-se de um verdadeira “confederação” de 55 estados de alto grau de autonomia, com legislações próprias, defendidos de intervenções de políticas federais pela própria Constituição do país. Assim, cada estado, na defesa do interesse da sua economia e de suas empresas locais, pode estabelecer variadas barreiras não tarifárias à importação que invalidam, na prática, o acordo firmado a nível federal. Para atuar naquele país, por exemplo, uma empresa de engenharia e seus profissionais deverão habilitar-se segundo as normas particulares de 55 estados, com suas barreiras não-tarifárias próprias, não removidas por um acordo firmado pelo governo federal. O Canadá, ao contrário dos Estados Unidos, logrou a uniformização desses requisitos nos seus 13 estados.

Enquanto isso, as empresas norte-americanas de engenharia, antes mesmo de um novo acordo mais amplo, já não encontram praticamente barreiras para atuar no Brasil. Basta constituir uma empresa segundo as leis brasileiras, para ser tratada em igualdade de condições com as empresas de capital nacional, ainda que o capital seja totalmente estrangeiro. Costuma ser ainda mais prático e econômico simplesmente comprar uma empresa brasileira de engenharia dotada de bom currículo técnico, mantendo os principais profissionais de seus quadros já devidamente habilitados para assumir formalmente a responsabilidade técnica dos trabalhos. Também não há dificuldades para o registro pelo menos provisório do profissional estrangeiro no CREA, se necessário, bastando a comprovação da sua habilitação no país de origem. Com a ALCA, essas facilidades serão certamente maiores.

Um aspecto importante pouco analisado é a ainda recente conquista dos canais magnéticos para o exercício profissional. Um projeto de engenharia pode ser desenvolvido a muitas mãos, simultaneamente, em diferentes países, por uma mesma empresa transnacional com filiais espalhadas pelo planeta, ou através de parcerias ou alianças. Ao concluir-se o projeto já não será possível identificar-se sua nacionalidade. Empresas norte-americanas têm relatado a experiência de alianças desse tipo com empresas indianas, para reduzir custos e prazos. Com efeito, elaborados por mãos americanas e indianas, aproveitam-se os salários menores praticados na Índia, com a vantagem adicional de trabalho-vinte-e-quatro-horas: quando os americanos vão dormir, os indianos estão acordando, para tocar o projeto enquanto dormem os de cá. E vice-versa...

Para analisar os aspectos positivos e negativos de uma ALCA, o mais recomendável, portanto, será conhecer mais amplamente o que se passa nos países do NAFTA, especialmente no México, já que o Brasil poderia vir a ser o México da ALCA, pelas semelhanças entre os dois países. Certamente será possível identificarem-se os setores ou grupos que se terão beneficiado com o acordo, e aqueles que foram atropelados, e amargam a experiência. Verificar, então, a que grupo pertence a engenharia. Depoimentos que temos ouvido, já comentados, indicam que a engenharia está no segundo grupo. Com base nessa verificação cuidadosa, serão então desenhadas as salvaguardas que neutralizem ou reduzam os riscos e abram oportunidades efetivas para a engenharia brasileira.

O passo seguinte seria o esforço de convencimento do governo brasileiro e seus negociadores para o trato diferenciado da engenharia no acordo, com a inclusão daquelas salvaguardas ou, simplesmente, a exclusão da engenharia da ALCA. Com efeito, a engenharia tem peculiaridades tão especiais que não pode estar incluída em cláusulas muito genéricas de tais acordos comerciais. O risco maior seria o estabelecimento de regras gerais razoáveis para a indústria e o comércio de bens, ou mesmo de certos serviços (bancos, seguros, turismo, etc.), mas desastrosos para a engenharia. A alternativa que não deve ser descartada seria a simples exclusão da engenharia na ALCA, para abrir possibilidades de um acordo separado e específico para o setor.

O Clube de Engenharia poderia ser a organização mais indicada para congregar os diversos setores da engenharia brasileira com vistas à realização desses estudos e a conjugação de esforços para as ações políticas subseqüentes. Este evento deveria ser considerado então como ponto de partida para esse movimento integrador, capaz de preparar-nos para uma atuação efetiva nesse processo.

Angelo Vian
Palestra no Clube de Engenharia

voutar


Copyright ©2007 fepac.org